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snsRadar · Observatório do Serviço Nacional de Saúde

O SNS, hospital a hospital · 2013–2026

Dados do Portal da Transparência do SNS, publicados pela ACSS, DE-SNS, INFARMED, SPMS e INEM, e do registo de contratos públicos do IMPIC (domínio público). Reutilizados ao abrigo da Lei n.º 68/2021. Não é um serviço oficial do SNS.

Metodologia

Porque é que estes números diferem da fonte

Os dados são os do Portal da Transparência do SNS, sem alterações. O que muda é o tratamento. Três correções separam estes números dos que se obtêm somando os ficheiros — e sem elas os resultados são errados por margens grandes.

1. As séries são acumuladas no ano, não mensais

A maior parte dos conjuntos de dados, incluindo os designados «evolução mensal», publica em cada mês o total acumulado desde janeiro — e não o valor daquele mês. A ULS de Coimbra aparece em 2025 com 394 partos em janeiro, 759 em fevereiro, 1160 em março.

Quem somar os doze meses de partos-e-cesarianas obtém413 728 partos em 2024. Portugal tem cerca de 85 mil nascimentos por ano. O valor correto, depois de converter os acumulados em fluxos mensais, é 64 505 partos em hospitais do SNS.

Nada nos metadados do portal indica que estas séries são acumuladas. É um erro fácil de cometer e difícil de detetar.

2. A reforma de 2024 parte todas as séries

A 1 de janeiro de 2024, o Decreto-Lei n.º 102/2023 renomeou 32 instituições, transformando centros hospitalares em Unidades Locais de Saúde. Nos dados, os nomes antigos desaparecem e surgem nomes novos: sem uma tabela de correspondência, nenhum gráfico atravessa essa data.

Sete dessas mudanças foram fusões de várias entidades numa só. A ULS de Coimbra reúne o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, o Hospital Arcebispo João Crisóstomo e o Centro de Medicina de Reabilitação Rovisco Pais. Para que a série não se parta, somamos as antecessoras — mas dizemo-lo em cada ficha, porque a organização de hoje não é a mesma de há dez anos.

A correspondência foi construída à mão, verificada contra o texto do decreto-lei, e está publicada no repositório do projeto para que possa ser corrigida por quem encontre um erro.

E mudou alguma coisa?

Atravessar a reforma permite compará-la consigo mesma. As 32 entidades que passaram a ULS absorveram os cuidados de saúde primários da sua área; as 7 que já eram ULS — Alto Minho, Matosinhos, Nordeste, Guarda, Castelo Branco, Baixo Alentejo e Litoral Alentejano — não mudaram de perímetro. São o grupo de controlo: sem ele, qualquer variação entre 2023 e 2024 confundir-se-ia com o que aconteceu ao país inteiro no mesmo período.

Doze meses antes contra doze meses depois, em 37 indicadores. As maiores diferenças estão nas contagens, e não querem dizer o que parecem: os médicos das entidades transformadas sobem 52.1 % contra -1.4 % no controlo — não é contratação, é a ULS a passar a contar o pessoal dos centros de saúde que absorveu. Só as taxas admitem leitura de desempenho, porque nelas o numerador e o denominador crescem juntos.

Taxas com maior diferença entre transformadas e controlo, doze meses antes e depois de janeiro de 2024
IndicadorTransformadasControloDiferença
Úlceras de pressão adquiridas no internamento+2.1 %-31.8 %+33.9 pp
Sépsis pós-operatória-0.6 %-31.4 %+30.8 pp
Primeiras consultas realizadas em tempo adequado-9 %+21.7 %-30.7 pp
Mortalidade a 30 dias por AVC hemorrágico+11.3 %-3.2 %+14.5 pp
Embolia pulmonar ou trombose venosa profunda pós-operatória-16.9 %-29.4 %+12.5 pp
Mortalidade a 30 dias por AVC isquémico+0.4 %+9.9 %-9.6 pp
Dias de espera no internamento antes da cirurgia programada-3.7 %+3.1 %-6.8 pp
Doentes padrão por médico+7.7 %+13.8 %-6 pp

Isto não prova que a reforma correu bem ou mal. São sete unidades de controlo, não houve aleatorização, e as que já eram ULS antes de 2024 não o eram por acaso: são, na maioria, do interior e de menor dimensão, e isso pode ele próprio explicar a diferença. Uma queda de 31,8 % nas úlceras de pressão do controlo tanto pode ser cuidado melhor como registo pior. É a leitura de conjunto que os dados públicos permitem, com os pressupostos à vista — não é um estudo.

3. As taxas somam-se pelos totais, nunca pelas percentagens

Uma taxa é sempre a soma dos numeradores a dividir pela soma dos denominadores. Fazer a média das percentagens mensais daria o mesmo peso a um mês com 12 partos e a um mês com 1200 — e produziria um número que não corresponde a doente nenhum.

O que o site nunca faz

  • Não mostra percentagens sem as contagens que as originam.Cada taxa vem acompanhada do «tantos em tantos».
  • Não calcula taxas sobre denominadores pequenos. Abaixo de 20 casos, uma percentagem é ruído: num mês com 8 partos, uma cesariana a mais move a taxa 12 pontos.
  • Não preenche lacunas. Um mês em falta fica em falta. Quando a conversão de acumulado para mensal não é fiável, não há valor.
  • Não lê como resultado o zero que é lacuna. Nos indicadores em que a fonte publica só a taxa, um mês por apurar sai como 0,0 %. Meia dúzia de zeros exatos seguidos, logo a seguir a meses que reportavam valores e ainda a durar, é falha de reporte: esses meses ficam de fora do valor, do gráfico e da mediana nacional, e a ficha diz quantos foram.
  • Não ordena hospitais do melhor para o pior. Estes indicadores não estão ajustados ao risco.
  • Não apresenta um número sem a sua proveniência. Cada valor liga à consulta da API do SNS que o reproduz.

A comparação que o site faz, e os seus limites

Cada indicador é comparado com a mediana das instituições, e não com a média — a mediana não é arrastada por um ou dois casos extremos. Onde existe uma referência externa reconhecida, como o intervalo da Organização Mundial da Saúde para cesarianas, ela aparece na escala.

Uma referência não é uma meta. Os 10 a 15 % de cesarianas são um consenso de peritos de 1985 e são a única régua que o público conhece — por isso continuam na escala. Mas em 2015 a OMS deixou de fixar um alvo: concluiu que a taxa ideal é desconhecida e que, acima de 10 %, mais cesarianas não aparecem associadas a menos mortes de mães ou de recém-nascidos. A régua serve para situar um valor, não para dizer quem cumpre.

Um hospital com piores resultados não é, por isso, um pior hospital. Um serviço que recebe os doentes mais graves de uma região terá mais mortalidade e mais cesarianas do que um que os transfere. Estes dados não permitem distinguir as duas coisas. Servem para levantar perguntas, não para as responder.

O que sustenta as afirmações do portal

Cada número liga à consulta da API que o reproduz. As frases que acompanham os números — que operar cedo uma fratura da anca está associado a menos mortes, que as fluoroquinolonas selecionam resistências — são afirmações sobre o mundo, e essas não se verificam numa API. Ficam aqui as fontes que as sustentam, as mesmas que aparecem no cartão de cada indicador.

Estado do projeto

43 unidades de saúde, 52 indicadores, séries mensais desde 2013 onde a fonte as publica. Os dados são reingeridos periodicamente e cada ingestão fica registada com uma impressão digital, para que se detete quando a fonte revê valores em silêncio.

Atualização

Última extração de dados: 2 de agosto de 2026. O catálogo do portal tem 144 conjuntos; destes, 26 são descarregados e guardados com a sua impressão digital, para que se detete quando a fonte revê valores sem mudar a data.

As camadas não cobrem todas o mesmo período, porque as fontes não publicam ao mesmo ritmo. Apresentá-las como se fossem do mesmo dia seria enganador — a mortalidade ajustada ao risco é a que fica mais atrás, e é o único indicador desta página que permite comparar hospitais.

CamadaCoberturaOnde aparece
Séries mensaisjaneiro de 2013 a junho de 2026o gráfico de cada indicador
Valor grande de cada indicador12 meses até maio de 2026a janela que produz o número em destaque
Triagem das urgênciasjunho de 2025 a maio de 2026a banda de cores da página inicial
População servidajunho de 2026o denominador das taxas por mil habitantes
Contratos públicos2012 a 2026registo do IMPIC, atualizado ao dia
Mortalidade ajustada ao riscojaneiro de 2021 a outubro de 2025depende do registo de morbilidade, que a fonte publica mais tarde
Contexto europeu2023Eurostat, que consolida os países com anos de desfasamento

A publicação não é automática: atualizar os números é correr o pipeline e registar a alteração no repositório. Num portal que publica indicadores de saúde, a revisão humana fica no meio do caminho de propósito.

Como citar

snsRadar — O SNS, hospital a hospital, 2013–2026. Compilação a partir do Portal da Transparência do SNS (ACSS, DE-SNS, INFARMED, SPMS e INEM), do registo de contratos públicos do IMPIC, do INE e do Eurostat. Disponível em https://sergioamsilva.github.io/snsRadar/ (consultado em [data]).

Para citar um número em concreto, vale mais a ligação «ver este número na fonte» que acompanha cada indicador: reproduz a consulta que lhe deu origem, e permite a quem o ler verificá-lo sem passar por aqui. Todo o código e os dados tratados estão no repositório do projeto, sob licença MIT.

O que mudou, e quando

Um indicador pode ser acrescentado, mudar de definição, mudar de escala ou ser retirado. Quem tiver citado um valor precisa de saber se ainda é o mesmo, e quem tiver encontrado uma diferença precisa de saber se foi a fonte que se corrigiu, se fomos nós, ou se está a olhar para outra coisa.

O registo de alterações guarda isso, incluindo as correções a números que chegaram a estar publicados e o tempo em que estiveram.

Erros

Se encontrar um número que não bate certo, o caminho mais rápido é seguir a ligação «ver este número na fonte» que acompanha cada indicador: mostra exatamente que consulta foi feita. Correções são bem-vindas.